Hoje eu escrevo do lado de quem olha pro mundo um tempo e suspira dentro do tamanho de um silêncio doído. As pessoas vivem passando umas por cima das outras, os bobos sensíveis se estacionam na esquina, por lá eles ficam, se aquecendo de cachaça, sem identidade e endereço fixo. Não é fácil manter as esperanças, o emprego, a boa vida. Não é fácil admitir uma certa crueldade inerente ao sistema das oito horas por dia. Os melhores serão sempre os piores e os fracassados serão sempre as boas almas que passaram despercebidas. Quero ficar em silêncio. Quero a invisibilidade do meu cantinho cheirando amor madrugada adentro, mesmo roendo de sinusite no dia seguinte. Não, eu não quero ser a melhor, porque dos melhores o pior nasce sem aviso, assim, como se fosse uma necessidade. Não, eu não quero viajar o mundo todo e ter milhares de amigos, quero a quietude de uma noite com quatro xícaras, uma nota de dois, um baseado e um bom livro. Quero ficar quieta, ouvindo Lhasa enquanto um amigo toma seu banho, enquanto aquele outro cuida da filha, enquanto o terceiro afunda no colchão. Quero me aquecer com cachaça sem ter que exibir minha foto no facebook, quero dizer que sou menos, quero fazer bem pouco, quero acordar cedo e tarde, beber chá e vinho, fazer piquenique, rolar de rir da samambaia flosflorescente. Quero bater a cabeça na parede de tanto rir, abrir a peneira sem perceber que fiz força demais, quero explicar a formação de uma torrada com requeijão enquanto não consigo engolir. O sistema é cruel. O pobre sem escola e sem oportunidade continua sendo o excluído das bolsas universitárias, o preguiçoso sem atitude, o favelado das cotas sem bons professores no ensino básico. É um ciclo vicioso. Um sistema de merda que massacra, que engole e cospe pra fora depois de um tempo. Eu quero minha burrice inútil, minha tranquilidade de saber que fiz tudo com o coração na mão, meus caminhos tortos e minha tristeza segura. Quero dançar na sala de drinks derramados, de um ajudando o outro, do sol nascendo forte enquanto apagamos as velas.
Cansei dessa coisa de quem colhe planta, mentira pura. Não é assim que funciona. Nunca foi. Muitas vezes quem planta é roubado silenciosamente no fim da noite, é exatamente por isso que outros colhem tanto. Quero plantar menos e colher menos ainda. Quero afundar na terra e viver das raízes. Quero a calmaria de quem pega o silêncio do amor.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Silêncio dentro do mundo
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Led um
O led começa cheio de frisos ao seu redor. Enquanto ele dança os amigos retiram as garrafas. Ele continua, sendo interferido e perfurado pela sua própria vida que junto aos Racionais explica um pouco a historia de todo negro de periferia do país.
Ou...
Você pode pensar que não passa de uma historia boba, para comover quem precisa só de um pouco de leveza e um cigarro na vida.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Distancia
Quero aprender francês e espanhol. Quero sumir daqui. Me instalar em algum lugar. Distância. Ausência. Sofrer a solidão dos estrangeiros. Um corpo sem pátria. Uma voz desconhecida. Caetano e Pina. Meu desastre é esse corpo que sente demais. Meu desastre é algo sem nome, um paradoxo constante. A tranquilidade se opondo ao exagero de uma ansiedade sem limite. Acho que ser presa seria uma boa solução. Pensei: quero ser condenada à morte
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Boas novas
To tão sem tesão.
E agora?
Estímula o corpo que o pau sobe junto.
É o pinto ou o corpo que tem alma? algum tem?
Entupiram meu tesão
Estou estourando gorduras flácidas dentro... e ao redor de mim
Grossa.
Grosseira.
Grosseiramente inútil e doce.
Minha poesia é barata, sempre foi.
Agora sinto dúvida em tudo
Duvidam de mim? Duvidem!
Ando derretida de amor
Ao se derreter, o doce grudou na pele, (deixem-me em paz separando meu sujeito!!!O verbo que se ferre inteiro) na retirada ligeira levou junto o maior órgão do corpo
Existe uma certeza mística de algumas coisas
é como se eu soubesse... existe um tempo, uma justeza implacável!!!
A dona da tristeza se mudou para o meu quarto.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Pancada
A madeira continua lá fora, 100kg deitados confortavelmente na varanda. Ouvi Amy e Bjork com o Vitor, ele me apresentou Varg ( acho que é esse o nome), bebemos vodka, saquê e cigarros. 5/pontos e 10. Chegamos em casa tranquilos, felizes pela viagem e a visita. Comemos picanha! Vamos no bolão? Comecei a ler o novo livro do Damásio, mas o medo me interrompia inesperadamente. Tive febre, vômito e dores de cabeça, uma diarreia insuportável. Faz bem sentir o mundo em família, vez ou outra faz bem, senti que faz. Muito sangue. Coloquei o pão de queijo no forno. Preciso começar a estudar para o mestrado, minha mãe é insuportável e minha madrasta sente ciúmes de mim. Viajamos 12 horas, chegamos ansiosos e apreensivos. Decidi não tomar banho, voltei pra varanda. No dia 31 chorei feito criança lembrando da noite anterior, tive medo que meu irmão morresse. O médico disse: minha querida, claro, estou vendo seu osso. Fizemos um drink, festejamos nossa união e nos contamos do passado. Bebemos ate tarde da noite, todos dormiam, em Ituiutaba se dorme cedo. Rimos tanto de nossas bobagens, viramos a vodka, o saquê e a cerveja importada de tangerina.... Encorpada. Sentei na rede e ela caiu, a madeira de 100kg atingiu em cheio minha cabeça e a do meu irmão. Sangue, muito sangue! 10 pontos na minha, 5 na dele, ele é novo, forte, faz muay thai, se esquivou pro fundo. Fomos no MC Donald e ele disse: magnífico, magnífico esse sanduíche! Bebemos suco de maracujá antes do almoço, fiz macarrão no forno. Chegando no hospital eu perguntei ao médico: tem que dar ponto? Ele me respondeu: minha querida! De perto sentimos o cheiro da girafa e do mico, gastamos R$6 no aquário, chinfro! Meu irmão detesta boné, mas não se pode tomar sol nos pontos, eles doem de tal maneira que, apesar da vida, o desejo é sentir o azar daquela pancada. Chorei deitada na cama, disse que tinha medo de ter ficado com a cabeça doente, qual não é? Dormi de um lado só, pra não abrir os pontos. O médico disse: encontrei farpas de madeira na sua cabeça. Serena. Tranquila. Calma na anestesia, a limpeza do machucado doeu tanto. Lacei as roupas de cama, arrumei a casa, sempre sinto que renova as energias. Pânico do telhado, sempre sonho com a madeira cedendo. Me sinto fraca demais pra aceitar o milagre da vida, dramática demais pra aceitar que estou bem. No desespero chegamos no pronto socorro sem chinelos, a enfermeira limpou meu sangue seco. Os pontos doem? Ouvimos velhas virgens, pink floyd, criolo e um tanto mais. Meu irmão cresceu. Sentei tranquila na varanda, mas a madeira deitada no chão trouxe aquele fiapo de vida. Estou viva. O que faço com ela? Sinceramente não sei. Discutimos teatro, planos, grupos. Sempre acho que vai cair mais madeiras, mais pesos, outras telhas e fiapos de madeira rompendo o fluxo tranquilo do cotidiano. Li o blog da Cida e pensei: será?