Eu sinto uma alegria tão profunda quando ela dorme. Hoje eu senti tanta coisa! Tenho sentido.
Quando eu deixei de sentir pedi a lua um amor intenso, e ele veio. Quando ela passa muito tempo no colo, mamando ou dormindo, dói. Dói os ossos, os músculos, o tempo, os mamilos, a espera. Ai ela aperta os pequenos dedinhos, respira, gruda na pele... Eu sinto um espasmo na alma tão bonito, uma certa paz de adormecer na calma de um amor. Eu amo, e esse amor não é direcionado a ninguém, ele-sao instantes. É seu sono que nos descansa, é esse silêncio. Essa bobagem simples, esses olhos regalados. São eles.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Ela
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Intervalo
Hoje eu olhei no espelho e vi uma mulher de 30 anos. Me assustei com a deformação do corpo, a deformação que eu criei nos olhos. Mas me agradou a face, os cabelos com o peso do óleo da gravidez escorrendo nos ombros. Os olhos fundos, as marcas na pele, uma jovialidade dentro das pálpebras e um sorriso velho derretendo a pele das bochechas.
Envelheci.
Deixei muita coisa pra década passada.
Meu cais. Inventei meu cais.
Nós reverberamos o que somos, o que somos no inconsciente... Hoje eu acredito nisso. Meio brega, piegas... mas acho que é isso.
A coisa vai, a onda acontece, a vida vive.
Ser mãe é viver muitos e muitos dias consigo mesma. Muitos e muitos dias com o que se é no inconsciente. O desejo é vibrar só no amor e em uma certa paz. Mas a vida não deixa. A cidade e o capitalismo corrompem tudo, até nossos desejos. Isso dói um pouco, e faz pesar ainda mais as peles das bochechas, e o canto dos olhos... As costas.
O olhar da minha filha é incrível, é lindo, é uma coisa que eu nem sei dizer. Eu ficaria horas ali, mas as costas doem e os braços tbm.
Talvez família seja isso, o desejo de permanecer, mesmo com as dores nas costas.
Piegas também, mas é o que tenho sentido. Uma certa breguice da bobagem que é isso tudo, e no fundo no fundo é só ficar ali, olhando...
sábado, 20 de janeiro de 2018
Puerpério
Caralho... A gente lê um monte de coisa sobre pós parto, puerpério, amamentação.... E as frases tão ali, prontas e feitas e a gente acha que entende. Só que não! Nem um relato é suficiente, nenhuma palavra sobre solidão consegue dar conta desse furacão. O peito dói, o bico fere, a falta de sono deixa a cabeça maluca, até fazer cocô dói.... Tudo dói. Tem aquele olhinho pequeno que te olha com amor, mas nem sempre ele afaga tudo. O choro fica na garganta, nos ouvidos, nos sonhos. O medo vez ou outra toma conta de tudo, e nem dá tempo de tirar uma soneca depois do almoço, ou então tomar um banho demorado pra espantar os maus espíritos. Um estado de exceção, talvez seja isso. Ser mãe é uma montanha russa, uma bola de fogo, uma corrida que não cessa.
No final do choro tem o amor, e no meio da tempestade a calmaria de uma mãozinha pequena segurando a sua.
É... Ninguém disse que seria fácil, mas a gente segue de mãos dadas, filha. Te prometo todo amor do mundo, mesmo com o peito doendo, os olhos fechados de sono e a alma cheia d'água. Deita no meu colo que ficamos em silêncio de mãos dadas. Te amo!
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Pós parida
Aurora nasceu dentro da água. Depois de 22h de trabalho de parto, 2h de expulsivo... Muita dor, muita emoção, muito amor.
E tudo se dissolveu na leveza daqueles olhinhos doces. Eu nasci junto dela, ainda tô aprendendo a ser.
O amor transborda em leite e sono.
Que venha 2018!
domingo, 24 de dezembro de 2017
Solidão da maternidade
Eu disse muitas vezes aqui sobre a solidão, sobra uma vaga ideia que eu tinha do que era estar sem a família por perto, sobre uma certa dor de se deparar com o escuro. Depois que eu fiquei grávida a solidão tomou proporções ainda maiores. O engraçado é que agora eu tenho uma filha, mas a solidão é a mais alastradora de todas. Nossos interesses mudam, nossos afetos, nosso foco na vida. A montanha russa é tão intensa que não dá pra compartilhar com ninguém esse turbilhão de medo, ansiedade, insegurança... E por aí vai!
Eu não tinha ideia do que era isso! Nunca senti tanto medo na vida, tanta solidão! Aperta. Desgasta. Desfaz as certezas. Eu não tinha a mínima ideia do que era ter um filho, e acho que ninguém tem, até tê-lo. E olha que Aurora ainda tá no ventre, nutrindo meu corpo de uma presença constante e abstrata. Mas ainda é abstrato demais. Não se fala muito sobre as dores da maternidade, caralho... Meu corpo é desconhecido pra mim, e isso muda tudo. Minha barriga imensa não me deixa dormir, os pensamentos não param, a insônia ataca as 3, a flacidez aumenta, o tamanho, as roupas não servem, a culpa depois de um cigarro escondido ou um copo de vinho é avassaladora. Todo mundo diz que não estou mais sozinha, é engraçado.... Porque a sensação é o oposto disso.
Espero minha filha com a ansiedade de quem cria, sem saber se vai dar certo, mas amando e odiando o furacão. O amor é uma coisa absurdamente maluca. Esse amor que eu to vendo nascer me faz inchar as pernas, me dói os ossos e preenche o peito de uma coisa sem nome. Não existem regras pra existir, mas eu concordo com a Estamira, somente as mães são pares, e o que nos une é a solidão da maternidade e o desconhecido da criação.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Por tudo que nao se diz
Existe uma fissura e uma dor no meio do limbo. É necessário nos responsabilizamos pela quantidade de afeto que permitimos aos encontros. Sinto falta de dividir as angustias da gestação. Mas eu permiti demais, não sei se isso me cabe. Sempre gostei de fugir por algumas horas, me dava um alívio.
Filha, você tem mexido tanto, tem sido tão emocionante e tão assustador. Eu tenho tanto medo. Eu tenho tanta vontade.
Os homens deviam aprender a ouvir mais, uma sensibilidade maior no silêncio, mas eles não conseguem, ou não quererem, ou não dão conta... Não sei.
Tenho pânico da vida as vezes, o útero pesado tem afundado meus pés na terra, chego a sentir alívio, mas é tudo segredo.
Tenho tido muitas dores, nos ombros e nas costas.