sábado, 24 de março de 2018

Sente-se uma tristeza.
Permanecemos horas em silêncio, os planos não são muitos. Tem um presente que nos consome. Não dá pra saber ao certo o que será.

Tem uma paz doce nos meus olhos, uma certa melancolia também, tenho certeza que foi ela.

Agradeço.

Minha filha tem olhos pequenos e gentis. A sobrevivência me tira um pouco a beleza diária, penso demais.

Tem um sopro no meu peito.

Deixo espaços em branco, nesse momento minha mente me escapa.



Permaneço em cansaço permanente.
O amor dói as beiradas, alarga os espaços vazios e coloca doçuras ao redor. O cotidiano é amargo, seco, duro.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Ela

Eu sinto uma alegria tão profunda quando ela dorme. Hoje eu senti tanta coisa! Tenho sentido.
Quando eu deixei de sentir pedi a lua um amor intenso, e ele veio. Quando ela passa muito tempo no colo, mamando ou dormindo, dói. Dói os ossos, os músculos, o tempo, os mamilos, a espera. Ai ela aperta os pequenos dedinhos, respira, gruda na pele... Eu sinto um espasmo na alma tão bonito, uma certa paz de adormecer na calma de um amor. Eu amo, e esse amor não é direcionado a ninguém, ele-sao instantes. É seu sono que nos descansa, é esse silêncio. Essa bobagem simples, esses olhos regalados. São eles.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Intervalo

Hoje eu olhei no espelho e vi uma mulher de 30 anos. Me assustei com a deformação do corpo, a deformação que eu criei nos olhos. Mas me agradou a face, os cabelos com o peso do óleo da gravidez escorrendo nos ombros. Os olhos fundos, as marcas na pele, uma jovialidade dentro das pálpebras e um sorriso velho derretendo a pele das bochechas.
Envelheci.
Deixei muita coisa pra década passada.
Meu cais. Inventei meu cais.
Nós reverberamos o que somos, o que somos no inconsciente... Hoje eu acredito nisso. Meio brega, piegas... mas acho que é isso.
A coisa vai, a onda acontece, a vida vive.
Ser mãe é viver muitos e muitos dias consigo mesma. Muitos e muitos dias com o que se é no inconsciente. O desejo é vibrar só no amor e em uma certa paz. Mas a vida não deixa. A cidade e o capitalismo corrompem tudo, até nossos desejos. Isso dói um pouco, e faz pesar ainda mais as peles das bochechas, e o canto dos olhos... As costas.
O olhar da minha filha é incrível, é lindo, é uma coisa que eu nem sei dizer. Eu ficaria horas ali, mas as costas doem e os braços tbm.
Talvez família seja isso, o desejo de permanecer, mesmo com as dores nas costas.
Piegas também, mas é o que tenho sentido. Uma certa breguice da bobagem que é isso tudo, e no fundo no fundo é só ficar ali, olhando...

sábado, 20 de janeiro de 2018

Puerpério

Caralho... A gente lê um monte de coisa sobre pós parto, puerpério, amamentação.... E as frases tão ali, prontas e feitas e a gente acha que entende. Só que não! Nem um relato é suficiente, nenhuma palavra sobre solidão consegue dar conta desse furacão. O peito dói, o bico fere, a falta de sono deixa a cabeça maluca, até fazer cocô dói.... Tudo dói. Tem aquele olhinho pequeno que te olha com amor, mas nem sempre ele afaga tudo. O choro fica na garganta, nos ouvidos, nos sonhos. O medo vez ou outra toma conta de tudo, e nem dá tempo de tirar uma soneca depois do almoço, ou então tomar um banho demorado pra espantar os maus espíritos. Um estado de exceção, talvez seja isso. Ser mãe é uma montanha russa, uma bola de fogo, uma corrida que não cessa.

No final do choro tem o amor, e no meio da tempestade a calmaria de uma mãozinha pequena segurando a sua.

É... Ninguém disse que seria fácil, mas a gente segue de mãos dadas, filha. Te prometo todo amor do mundo, mesmo com o peito doendo, os olhos fechados de sono e a alma cheia d'água. Deita no meu colo que ficamos em silêncio de mãos dadas. Te amo!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Pós parida

Aurora nasceu dentro da água. Depois de 22h de trabalho de parto, 2h de expulsivo... Muita dor, muita emoção, muito amor.

E tudo se dissolveu na leveza daqueles olhinhos doces. Eu nasci junto dela, ainda tô aprendendo a ser.

O amor transborda em leite e sono.

Que venha 2018!

Pari!

O maior amor do mundo....

domingo, 24 de dezembro de 2017

Solidão da maternidade

Eu disse muitas vezes aqui sobre a solidão, sobra uma vaga ideia que eu tinha do que era estar sem a família por perto, sobre uma certa dor de se deparar com o escuro. Depois que eu fiquei grávida a solidão tomou proporções ainda maiores. O engraçado é que agora eu tenho uma filha, mas a solidão é a mais alastradora de todas. Nossos interesses mudam, nossos afetos, nosso foco na vida. A montanha russa é tão intensa que não dá pra compartilhar com ninguém esse turbilhão de medo, ansiedade, insegurança... E por aí vai!
Eu não tinha ideia do que era isso! Nunca senti tanto medo na vida, tanta solidão! Aperta. Desgasta. Desfaz as certezas. Eu não tinha a mínima ideia do que era ter um filho, e acho que ninguém tem, até tê-lo. E olha que Aurora ainda tá no ventre, nutrindo meu corpo de uma presença constante e abstrata. Mas ainda é abstrato demais.  Não se fala muito sobre as dores da maternidade, caralho... Meu corpo é desconhecido pra mim, e isso muda tudo. Minha barriga imensa não me deixa dormir, os pensamentos não param, a insônia ataca as 3, a flacidez aumenta, o tamanho, as roupas não servem,  a culpa depois de um cigarro escondido ou um copo de vinho é avassaladora. Todo mundo diz que não estou mais sozinha, é engraçado.... Porque a sensação é o oposto disso.
Espero minha filha com a ansiedade de quem cria, sem saber se vai dar certo, mas amando e odiando o furacão. O amor é uma coisa absurdamente maluca.  Esse amor que eu to vendo nascer me faz inchar as pernas, me dói os ossos e preenche o peito de uma coisa sem nome. Não existem regras pra existir, mas eu concordo com a Estamira, somente as mães são pares, e o que nos une é a solidão da maternidade e o desconhecido da criação.