quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tentando a tentativa de tanto

Procuro e vejo simplesmente tentativas mil... tentativas tantas, tantas tentativas de. E venho tentando e tentando eu sigo. Tentada a.O dia brilha, esse dia que me tenta e eu tento. Os dias brilham...e eu tento, tento tanto que na pela a tentativa é relva. Um dia sufocado em mim. Borboletas na grama, sucos e cigarros. Eu tentei, eu venho tentando. Não me resta mais nada além de uma simples tentativa branca com cheiro de alecrim. Ela tenta sumir, mas sempre volta. Acordo disposta a tentar de novo, e vou, e ando, continuo. Me mantenho tentando tentativas mil. Não sei mais. Não entendo. E tudo que não entendo são só tentativas... eu tento.

  • Eu disse pra ela que aquilo não tinha sentido, e viver sem sentido é ferro me cortando a garganta.

Não esfregue na minha cara suas tentativas de sucesso. As minhas são minhas, tentativas adormecendo no próprio corpo, dormindo no próprio umbigo. Tudo dorme em mim e tenta. E não sei saber de nada que não seja esses apertos de alma e essa escola de ser melhor. Essa escola de ser em mim a tentativa de uma vida, a tentativa da escolha, a tentativa de me dar conta.

Tentando a tentativa de dar conta. Só isso.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

CUIDA!

Ele cuida de mim!E foram poucas as vezes nas quais eu fui cuidada, na maioria me cuidei sozinha e me esfolei toda. Ele cuida das minhas dores, limpa minhas feridas, me acolhe a noite quando não consigo dormir. Já vivi dezenas de insônias solitárias, e elas doíam também quando tocava dentro. Já me enfrentei no escuro, continuei, mesmo querendo voltar, e tudo isso doeu muito. Quando necessário ele abre todas as janelas, coloca luz no quarto e me dá carinho e colo toda vez que penso em fugir. Desejei sumir no meio da madrugada, desejei beber todo álcool de toda festa, desejei ficar bêbada, completamente bêbada, super bêbada, bebinha, tontinha, até cair. Era então nesse exato ponto sem fim que eu me machucava sem saber pra onde. Ai ele aparecia, lavava os copos, me dava água, limpava o vomito que caia na sala e ficava comigo até eu dormir. Aprender a ser cuidada foi um exercício que ele me ensinou, e quando do fundo da minha alma corroída eu desejava desistir, de novo ele pegava minhas mãos frias e as apertava contra seu colo quente, nos enfiávamos embaixo do cobertor, e de fundo ele colocava Gal Costa, e cantava pra mim até me fazer sorrir. Ele cuida do meu umbigo sujo, dos meus pulmões machucados, da minha tosse que não cessa nunca. Ele me da banho quando choro até perder a força nas penas, mesmo que tenha sido por ele, pra ele...não importa!Ele sempre cuida de mim. Ela chama o médico enquanto eu tomo chá, ele aperta os cadarços quando estou prestes a tropeçar, ele brinca comigo quando eu penso que a vida é chata, escura, sem graça e sem sentido. Ele lê minha Clarice, ele se preocupa com tudo, em tudo, pra tudo!Ele é uma flor, uma flor inteira e colorida, que todos os dias me faz muito, muito feliz.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Preciso te dizer

Vou te dizer uma coisa. Uma coisa bem longa e comprida. Dessas coisas que nossa vista não alcança! Dessas difíceis de sair de dentro, difíceis de se tornarem concretas, difíceis de darmos conta. Eu sinto dores, sinto dores homéricas no corpo. Minhas costas, minhas pernas, meus dedos da mão. Eu também sinto apertos de uma descrição que não compreendo. Minha alma aperta... e minhas mãos também. Vez ou outra tenho cansaço nas vistas, e um cansaço de corpo que me coloca dias e dias quieta em um canto. Mas o pior são as crises. Crises de tristeza, crises de medo, crises de impotência, crises de amor, crises de vontade, crises de esperança, crises de solidão. Tudo isso faz de mim o que eu sou, tudo isso me molda de uma forma que nem sempre alcanço, que nem sempre vejo. Eu precisava te dizer de tudo, eu precisava te contar que adoro ver a lua deitada na rede da Mari. Precisava te contar dos dias que chego em casa e choro sem motivo algum... e tem também os vinhos, todos os vinhos que bebo, e não precisa ser sexta...nem sábado ou domingo. Gosto também de tomar cappuccino a noite, e chá mate também. Não durmo sem fumar aquele último cigarro no silêncio escondido da minha cama. Acredito no amor, acredito na sinceridade e intensidade de cada relação. Tenho milhares de sonhos e de utopias... uma delas e passar uma semana comendo brigadeiro(sem engordar) e um dia toda em uma cachoeira bemmmmm grande e bemmmmm bonita. Gosto também de pintar, e adoro café da manhã na cama. Acho lindo as flores, os sabores, os cheiros... e os livros, as histórias, os autores. Precisava saber que você sabe. Precisava ter certeza que você sabe. E se mesmo assim você quiser continuar se aproximando, se aconchegando...me conhecendo...eu deixo!!!Deixo sabendo do risco, deixo sabendo do perigo que qualquer aproximação traz junto de si. Mas deixo.... porque todas as coisas inesperadas também me atraem.

sábado, 16 de abril de 2011

Eu amava....

Ele sorvia-se de mulheres. Dezenas. Comia cada centímetro oferecido em todas as belas bandejas baratas. As poucas intensas e interessantes que encontrava pelo caminho ele temia. Logo largava exposta em qualquer esquina, em qualquer beco sujo cheirando a mijo e cigarro.
Eu entrei e tentei ficar. Tirava dele o pior. Espremia e arrancava.... esfregava na cara todos os sapatos velhos, as roupas apertadas e as escolhas insensatas - não que ser insensato seja algo desinteressante, mas sua insensatez era estupida e mal cuidada -.
Um dia, depois de ter transado com uma pequena qualquer, ele voltou para casa. Colocava a camisa no canto e demorava horas no banheiro. Comia, deitava, lia... Tudo em silêncio, um silêncio absoluto de quem não se entregava. Pelo cheiro eu sabia. Pelo olho eu adivinhava. Meio bruxa apanhava os indícios.... Ele enlouquecia, confessava. Uma, duas, três, quatro...milhares de transas fúteis e banais. Um gozo morto, sem nexo e pouco provável. Gozava no peito, na boca, no sexo. Depois sofria, arrependia. E eu continuava. Era gostoso aquela história meio sado, meio paradoxal e dolorida. Eu queria o máximo, o máximo que aquele ser poderia me oferecer. Busquei cada pedaço de sua alma, mesmo aqueles que me faziam tremer... eu amava.
Ele pedia perdão, mandava flores, escrevia músicas... e nada me bastava, talvez no fundo eu quisesse ver intensamente e imediatamente o seu pior. Não sabia se conseguiríamos, mas continuei...eu amava.
Um dia ele chegou em casa meio morto, confuso, quebrado. Arrancou as roupas, me abraçava e apertava. Chorava delirantemente, me contava tudo, e dizia que tinha medo de todas essas suas infidelidades. Por um instante ele me perdeu. Desisti porque não sabia mais se amava. Na minha teimosia... eu continuei. Dias depois eu continuei. Estava cansada, acabada, fraca e um pouco sem rumo. Aquilo que me propus era farpa, ferro arranhando a garganta, dores imensuráveis no peito, noites de insônia, rouquidão. No sexo eu imaginava tudo, pensava em tudo. Todas as bocas, os corpos, os cheiros. O que mais me incomodava eram os cheiros. Sempre achei cheiro uma coisa extremamente importante na relação de reconhecimento, eu não sabia mais se ele reconhecia o meu, e o dele era disperso, misturava-se com todas as excitações sentidas e vividas, eu não me concentrava. Arrumei as malas, fui embora, sumi por dias, mas depois voltei. Com flores no cabelo e um cheiro forte no pescoço, eu, aquela que tanto foi apunhalada, voltava e pedia perdão. Transávamos a noite toda, um enroscando-se no corpo do outro, o outro adormecendo nos braços e no colo de uma continuação que não sabia-se mais se era amor.
Fotos, horas, momentos, declarações, promessas, sonhos, desejos....tudo enredava o próximo futuro de nós dois. Mas o passado é marca, cicatriz dolorida na alma... Não esqueço, não esqueci. E em uma noite improvável ele encontrou uma linda menina de cabelos lisos e longos. Mandou música, email, mensagem. Um cinema, um desejo... naquele meu estado meio bruxa eu sabia. Bebi muitas cachaças e gritei na rua. O inferno da sinceridade nos consumia. O sabor da distância nos apagava. Mandei sumir, vociferei!
Comprei um vestido branco, decotado, sensual. Engoli quase uma garrafa de vinho inteira. Tive alucinações, sai, falei, chorei e depois de tanto tempo uma outra mão masculina, que não era a dele, tocava meu sexo, embriagada pela desistência e o medo do amor desleal eu tentei. Abri as pernas e o decote, tirei a calcinha, fumei um cigarro e senti. Meu corpo fervilhava de tesão e sofrimento.......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... No momento exato daquela vingança, pouco sensata mas necessária, eu corri. Não conseguia....não bastava, não dava, não colava. Eu não era assim. Pouca intensidade e gozo somente por necessidade, me repudiava. Eu não era ele. E mesmo que naquele instante deseja-se ser, eu não era. Voltei para casa suja e estuprada por mim mesma. Chorei como nunca pela quase traição que me acometia. Um dia em coma. Um dia inchada. Um dia cinza e com gosto de fracasso na boca... eu ainda amava. Impressionante, mas depois de tudo.... eu ainda amava.
Abri a porta e, mais uma vez, voltei. Estávamos em trapos, eu e ele. Mas nos amávamos nas nossas contradições e passado de cicatrizes. Ele se manteve fiel, e eu sempre a mesma.
Hoje ele sumiu. Apareceu nesse instante, com a gola suja e o discurso antigo de sempre. Gelei os pés. Esfriei de alma. Mas aquela coisa meio bruxa acendeu seus olhos, acendeu seus olhos e eu vi... eu vi!Vi que ele me amava... e que talvez tenha tentado continuar, mas não conseguiu, não conseguiu porque pela primeira vez, de corpo e alma e com todas as partes do corpo....ele me amava. Eu vi!Ele me amava....

Ela

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A raminéia ruminava

A raminéia ruminava
Para, Samuel sudré
Ele queria qualquer coisa que coubesse dentro dos sentidos incabíveis. Mas nada era como ele queria. E os dias se arrastavam, todos. Aquele café amargo de todos os dias. Acordava às 11h –dormir cedo era impróprio – ao som de Elis ou Gal, preparava o café, antes dos dentes. Enquanto a água fervia, fumava um cigarro. Depois o café amargo. Mas de uns dias pra cá, o café não descia. Com açúcar, sem açúcar, com adoçante, ralo, amargo. O café não digeria. Aquilo vinha estragando seus dias. Amassando sua cara, suas costas. Não conseguia fazer mais nada. Tentava um almoço, um trago, algum estudo, e nada. Acendeu uma vela, um incenso, apagou a luz, abriu as cortinas, ligou “Secos e molhados”, enjoou, vomitou, tentou yoga, meditação, nada funcionava. O café não descia. Ele não dormia. Porque diferente de muitos o café não dava ânimo, nem energia ou, qualquer coisa dessas. Era só um vício. Um desejo que, não realizado, causava náuseas, amnésia, insônia. Realizado...Bem, realizado, tudo funcionava normalmente.Não era dessas coisas pra gente dizer que fazia mal. Não era mal. Não isso. Era alguma coisa mais nova, sem palavra. Talvez, reminéia.É! Isso mesmo! Reminéia. Essa palavra era dele e só dele era ela. Pertenciam-se um ao outro. Redundantes. O café não pegava. Tentava ligar, desligar. Tomava banho e fazia uma prece. Olhava pra xícara antes de tomar, depois tentava o contrário. Mas... Nada. Exatamente nada, não funcionava. O café não podia. Aquilo atrapalhava sua vida. Os trabalhos não terminavam. A roupa continuava suja. A casa mal arrumada. Ele ia ia ia ia ia....E nada!Insustentável. O café não cabia. Ele enlouquecia. Fumava maconha, cheirava cocaína, e respirava craque. Nada adiantava. Nem os sucos, o arroz integral, as verduras. Isso não funcionava nunca. O aperto se mantinha. E aquilo que não fazia mal continuava não fazendo bem. Era duro viver. Era rocha, pedra, poste. Fazia dele qualquer coisa menos que objetos. Menos que as promessas e as rezas das velhinhas, vizinhas da casa de infância. O café não existia. Ele mantinha-se ruminando aquela raminéia que não cabia, não descia, não existia, não digeria, não pegava, não podia... E ele ia...ia...ia...ia...ia...ia...ia...ia...

Deus e o chuveiro


Ela estava errada. Não sabia que estar no banheiro significava reclusão. O banheiro representava para ela, sob qualquer estado de consciência, aquele momento de si mesma onde a vida escorria ralo abaixo, logo, não existia por alguns segundos ou existia de mais, o que tornava tudo involuntariamente um excesso. Deitada no azulejo frio nossa menina representava o que de melhor havia dentro dela, no silêncio hebefrênico sorria, ria, existia e contava com a sorte, o que é demência na situação em que “Ela” encontrava-se. O banheiro representava o momento da falta de raciocínio, sem conclusão, suspensão...Perigo eminente latejando em suas retinas, e a princesa continuava ali, rindo, sorrindo, existindo, esqueceu o corpo no chão, perdeu as roupas do lado de fora e a água fria do chuveiro já resfriava seus pés brancos e calejados. Na cabeça contava o momento de transtorno do dia anterior, o momento de decisão, o instante em que resolveu viver no banheiro.
Era dia claro, um pouco de calor na pele, solo quente, nuvens, e nossa menina andava, andava, andava e nada!Absolutamente nada acontecia, nada de extraordinário, nada digno de nota. Ela só não gostava, sentia dor, aperto, angústia, qualquer lugar era melhor que tudo aquilo, estava no inferno e só percebeu quando Deus apareceu diante dela com um copo de água fervendo, dizendo:
-         Aceita?
Ela não aceitava nada, não queria aquilo, estava calor!Afinal qual o motivo da água?Teve pânico, horror, medo, susto...Deixou de andar e começou a correr, pensava que era sonho, estava fervendo, tudo transbordava igual leite quente, correu horas até chegar em casa, ávida, exausta, cansada. Tirou a roupa e ponto. Comecemos nossa estória.
Há mocinha lépida e nua, em determinada hora da noite, utilizando-se da mão direita abriu o chuveiro.
Feliz e quente, morreu de hipotermia.

"Meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores.È necessário que eu tenha a modéstia de viver"