Depois de um tempo a gente retorna à família. Mais velha, com os dedos amarelos e o cabelo loiro, curto, mais penduricalhos na cara e rabiscos pelo corpo. Com o tempo aprenderam a me respeitar. Com o tempo aprendi a ama-los de um outro modo. As rusgas da mãe e o cansaço da avó derretem as armaduras dos últimos anos. Nos olhamos quietas, acho que compreendemos o peso do tempo. As falas parecem de outra época. Rimos de imbecilidades familiares, ficamos em silêncio quando o assunto é política.... Vez ou outra é melhor manter a neutralidade. Pararam de zuar minhas roupas, meus colares, minhas escolhas. Acho que eles entenderam que sou assim mesmo, devolvo o elogia às mulheres da casa, os homens ainda me dão uma certa náusea. Nossas mãos se parecem tanto! Tem também um certo jeito no sorriso, no canto dos olhos, no movimento dos braços. Eles não me conhecem! Também não sei muito dessas personalidades que ressoam passado e vínculos de sangue. As memórias retornam feito fantasmas. Depois que todos se deitam caminho pé a pé pelos corredores da casa, pela varanda e cozinha. Éramos bestas mulheres e meninas tentando dar conta do inesperado, do incompreensível, do não se sabe. Hoje a gente reconhece a semelhança nas curvas das mãos e no canto dos olhos, em silêncio a gente se respeita. É.... O tempo da cabo de uma porrada de dor!
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
13 de dezembro de 2016
Aprovaram a PEC. As pessoas continuam apanhando e sendo presas. A PM reprime as manifestações, em São Paulo é pior. Mataram o filho da Tati Quebra Barraco, mais um, esse (e esses) sem bala de borracha. Assisti o documentário da Janis e pensei que seria melhor que as pessoas fossem assim, intensas e apaixonadas. Acho que a força do capitalismo mundial integrado endureceu os corpos, sofremos de desejo. Chove bastante. As pessoas continuam morrendo nas favelas, apanhando nas ocupações e sendo silenciadas em qualquer máquina de poder. O desespero aumenta quando vejo o poder que a Globo ainda tem, e ainda terá. É tudo uma grande farsa, vivemos um roteiro de cinema, o céu se desmancha e a gente chora a morte do ator. Já quis ser uma grande artista, hoje acho que isso não faz sentido algum, depois de Mariana qualquer tentativa de arte é merda. Prefiro o silêncio, o carinho, o tesão e o amor entre os pulmões. Afetos revolucionários. Deixar-se contaminar por si mesmo, me parece ser essa a grande revolução. O mundo vibra deslocamentos diários, sinto que é melhor escutar a chuva e deixar correr o tempo das coisas. Não imaginei que veria o mundo ruir na minha frente, enquanto os alarmes disparam seus alertas o coração só pede pausa. Calma. Afago. Arrego. Fiz um chá de camomila e lembrei da Janis, da Amy, da Camille... Penso que o mundo é um lugar onde você pode ouvir a voz por detrás do espelho, feitos os livros do LGA (o policial morto pelos excessos de hipócritas). Ouvir o grito de dentro e deixar que do lado de fora respingue pulsões. O mundo escancara podridões, o falso é verdadeiro e o verdadeiro é falso. Não acredito mais na história, nos heróis, nos conceitos fudidos que me fizeram engolir. Tô querendo dar um rolê por aí... Deixar a banda dos contornos mais leve. Enfim... Acendo outro cigarro e coloco Janis.
domingo, 11 de dezembro de 2016
sábado, 10 de dezembro de 2016
Pelas inconstâncias
Eu sou do tipo que se perde fácil. Deixo as intensidades guiarem o caminho, um pedaço de pão e um copo de rum. No meio da rua caminho absorta de dentro dos sonhos. Sonho um bocado. Sem Democracia, pós-golpe, mídia golpista, era do trauma.... A gente segue desejando o amor, mas de longe, do outro lado. O amor tem dessas coisas, vai cavando buraquinhos e quando a gente menos espera, pá! Retardada de carteirinha perco o rumo do fio, o início da fila, a promoção do supermercado. Perdi o prumo, e do amor exijo somente cuidado, já que de longe a vida segue ferindo e de dentro a gente se perde um bocado....
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Brinco de princesa (M), Arruda (I), àrvore da felicidade (P), Alecrim (O-S), Léia (R), Lavanda (C), Pitanga (E), Lírio (M-A), Samambaia (M), Cidreira (J)
Acordo e coloco Chopin (complete nocturnes) bem alto no fone de ouvido. Um café quente e um pedaço de broa. Enquanto o cigarro queima no cinzeiro penso sobre o quanto os homens são egoístas. Penso também que as mulheres foram ensinadas a ficarem em silêncio pela superioridade de compreensão que elas carregam. Os homens não suportam no corpo o entendimento de certos assuntos. Eles ressoam falácias medievais e vomitam regras obsoletas. As mulheres sentem no corpo e só depois tentam compreender. É claro que não se pode generalizar, existem mulheres com ares masculinos e homens com aspectos femininos, de ambos eu digo da existência (alma, energia, também não sei o nome dessas subjetividades), o resto não me interessa. O cigarro termina em cinzas, o cinzeiro verde deixa rastros da noite passada, dois cigarros de filtro vermelho e três de filtro branco. Excessivamente intensa corro mais uma vez aqueles velhos riscos. As 2 da madrugada, depois de bater o portão, deitei e chorei um pouco. Sem o desespero dos anos perdidos dentro daquele trauma, mas ainda com o corpo doendo do abuso. Foi ai que eu me lembrei de Ituiutaba, da violência sofrida na infância, do ódio espalhado dentro do meu medo do mundo. Quando a criança é estuprada, violentada, espancada e abandonada não se pode esperar com muita previsão absolutamente nada, as incertezas são seus limites. Vez ou outra aparecem pássaros no meu quintal, no final da tarde o laranja do por-do-sol deixa as plantas com ares de magia. Hoje, quando me recordo das violências que sofri, sinto feito as plantas do meu jardim.... um por-do-sol com ares de magia. Um findar da tarde, dos medos, das ansiedades, e um sol que queima a pele com o tempo, deixando a alma com ares de magia. Ja odiei durante muitos anos, todos os dias, aquela velha que teimava em bater com a minha cabeça na parede, de uns tempos pra cá o ódio se tornou como um perdão diário. O mesmo digo do homem que me fazia chupa-lo, aos cinco ou seis anos, ja não sei ao certo. O mesmo digo dos meus pais que me abandonaram, o mesmo daqueles tantos outros homens que teimavam em me fazer mal enquanto eu me distraía na adolescência raivosa. Sinto por todos eles um perdão diário, um desejo absoluto de que eles se perdoem, porque não deve existir nada mais dolorido do que não se perdoar. Enquanto acendo outro cigarro e reabasteço a xícara de café penso em quem eu me tornei. "Mulata não das raças, mas de existências". Não deixo mais que me aconteçam coisas tão dolorosas. Não permito mais que me arranquem o amor que tenho. Não me permito mais doer em silêncio. Meu corpo, minhas regras. Pego um biscoito desses amanteigados, acendo outro cigarro e observo. Me sinto uma privilegiada, alguém que, não se sabe como, nem quando, nem de que jeito, conseguiu estancar o jorro, o choro, o medo. Os nomes das minhas plantas são os nomes das pessoas pelas quais senti desafetos, cuidando de cada vaso eu cuido um pouco de cada dor.