domingo, 15 de setembro de 2019

Início

...uma vida inteira tem me doído os nervos das costas. doem também as escapulas, o calo no meio do pé, o dente careado. por uma fração de tempo me sinto estarrecida. sem início. não sei quase nada sobre mim, desconheço a existência de equilíbrios. meu maior medo é anestesiar as injustiças. é não me deixar impressionar pelas belezas da vida. faz tempo que não paro um pouco pra escrever, a vida correu em apressar as mudanças. agora estamos aqui, eu e ela, aprendendo a ser só.  voltando as origens. resolvi adentrar nas cavernas,


eu vejo um campo de girassóis, uma alegria imensa, crianças correndo em um verde que se perde no horizonte, ruas floridas, pessoas felizes. então eu fecho os olhos e escuto o silêncio. Agudo. Muita Gente Chora. muita coisa não faz mais sentindo. como em um espelho, existem pessoas que trabalham demais esperando que seus reflexos atualizem a realidade. que modifiquem suas escolhas. do lado daqueles que já desistiram dos reflexos, a vida parece mais leve, e a paz mais constante.


Dentro da caverna. Perdi meus cabelos, se juntaram aos meus.

agora eu penso que a melhor forma de prosseguir é amando os detalhes. amar os desajustes, acolher os desajustados. meu processo de criação é a própria vida. não parar nunca de fazer perguntas e de seguir os desejos. parar pra respirar. ouvir o silêncio.



domingo, 3 de março de 2019

Sobre ser mãe

Eu fujo de escrever sobre isso. São tantas pontas, e todas elas terminam em mim mesma. A maternidade é solitária, é solitária porque a gente não se reconhece, porque vamos construindo juntas, cada pedaço, cada sensação nova. A maternidade é um precipício, uma montanha russa, um parque de diversões. A maternidade é dura. seca. oca. Eu não consigo mais dizer de mim. E eu mudei tanto. As roupas, o cabelo, a cara, os medos, os sonhos. Mudei o jeito de ver a arte, de encarar a vida, de seguir os planos. Muitos amigos se foram, outras mães chegaram, alunos, crianças, amigos. Um ciclo que assusta. Da arte, hoje em dia, eu não espero muita coisa, só esse amor que sustenta tudo. É meu jeito que resta e que ampara esse meu mundo torto. Aprendi desde nova a abandonar as decepções, hoje eu convivo com elas, são intensas e diárias. Não se fala muito das durezas maternas, é um pacto silencioso que fazemos com o universo. O problema é que eu nunca gostei de ficar calada. Hoje, aos 32 anos, eu sei que escrever me salva, e o teatro sou eu. Eu e meus enredos, minhas armadilhas,  minha dramaturgia autoficcional. Com Aurora aprendi a dormir cedo, beber menos, e superar o cotidiano. Aprendi também que a vida é dura pra muita gente, e que devemos tentar, ao máximo, aliviar as dores ao nosso redor. Entender nossos privilégios, perdoar a ignorância e superar o ego. A maternidade é  pura insegurança, culpa, e esse amor absurdamente intenso. A maternidade são noitadas ao lado do berço, e virotes de feriado arrumando a cama, a casa, a mala e o corpo. A maternidade pra mim foi a mesma coisa que rasgar a pele e se ver de dentro. Um corpo cheio de feridas, uma alma cheia de sono. Vez ou outra eu lembro do meu parto, ou, do dia em que morri um tanto. Minha sensação foi a de um túnel longo e escuro, uma força que eu não sabia que tinha, mas também um medo que vinha de não sei onde. Que vem... O medo e a força, de tudo isso junto transborda o amor e a alegria de poder viver raridades. Lembro da Aurora me rasgando toda, e a sensação de que eu não aguentaria, mas antes mesmo de finalizar o raciocínio, uma força bruta surgia do ventre, e ela descia mais, e eu sabia que conseguiria. Apagava. Meu corpo sucumbia. Nesses instantes eu não era mais aquele amontoados de ossos, eu era um canal de luz que sentia chegar a vida. Morrer deve ser assim, um parto. Quando a cabeça dela saiu eu uivei, gritei.... depois o corpo, o dela e o meu, nascíamos.  O Carlos me segurou, eu segurei a Aurora, e aquela energia inexplicável da vida. Depois que eu pari acho que aprendi a conviver com a morte, e penso que o fim é só um novo começo, um ciclo. Talvez seja isso, a maternidade. A força da vida e a potência da morte.  Eu quero engolir o mundo, mas antes eu preciso aprender mais sobre mim mesma, sobre minha morte e meu começo, sobre ser mãe e continuar sendo, todos os dias, ininterruptamente, a Dayane e a mãe da Aurora. Eu também escrevo do meu túmulo, Clarice. Meu berço de terra fértil, minhas sementes e meus sonhos. A maternidade é minha cova profunda onde eu planto recomeços. A maternidade é minha beleza, o broto que cresce, a água que da força, a terra que fertiliza. Mais uma vez eu sinto ela me rasgando toda, e eu uivando pra lua cheia o medo e a força.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Tarde

Amarrei os sapatos e fui. não sei pra onde. mas aqui tem bolas coloridas e um pouco de céu, vento e chocolate. suspiros.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Amanciada

Eu gosto de escrever. agora eu escrevo pra nada. o meu nada. o meu ponto de respiro. pausa. pausa. pausa. pausa. perdi uns pedaços. ganhei outros. remendada. amaciada. amanciada.


Um dia eu volto?

Talvez!

Escrever as rachaduras fere as feridas.

Primeiro retorno

Faz tempo. tempo. não me reconheço, me apavoro. o silêncio da sala arrumada, da poeira nos livros, da luz amarela que ilumina as flores do altar. esse eu não sentia há muito tempo. esse silêncio de mim mesma. uma espera absoluta de não pertencer a nada. sendo qualquer coisa que não mãe. a mãe abestalhada que desaba inseguranças, medos, culpas. me lembro de Aiuruoca.  a vitrola. a música. a dança. a alegria do vento. a xícara enorme do parque de diversões, e eu la dentro, rindo, rindo, rindo... Feliz!

domingo, 6 de maio de 2018

Por tudo

Incapacidade
Solidão
Medo
Angústia
Impotência
Medo
Incapacidade
Surdez
Machismo
Machismo
Machismo
Machismo
Cansaço
Cansaço
Cansaço
Medo
Incapacidade
Angústia
Solidão
Responsabilidade demais
Peso demais
Medo demais
Solidão

terça-feira, 17 de abril de 2018

Cansada

Ir embora.
Os homens são terríveis.
Deixar ir.
O machismo é silencioso, a pior espécie.
Partir.
Eles estão sempre certos, todos iguais aos pais.
Não ficar.
Eles sugam.
Sumir.
A gente vira mãe e empregada.
Desistir.
Carregando tudo sozinha.
Abandonar.
Com o passar dos dias o tesão acaba.
Os homens não sabem nada sobre o amor.
Desaparecida.
Os sapatos ficam apertados, a gente começa a ter sonhos esquisitos, a libido cai dentro do lixo e os olhos olham alguma coisa que não existe.
Respirar um pouco, deixar fluir, manter os planos, nós duas, de mãos dadas e o infinito.